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Aumento da tarifa dos ônibus municipais pode agravar a crise nos transportes em Nilópolis

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O aumento das tarifas dos ônibus municipais, concedida na última sexta-feira (13) pelo prefeito Farid Abrão, retoma o debate sobre a crise de mobilidade urbana em Nilópolis. O que se vê são anos de aumentos indiscriminados das passagens, falta de transparência no contrato entre a Prefeitura e as empresas de transporte e mais engarrafamentos resultante da opção do nilopolitano pelo modelo de transporte individual em detrimento do coletivo.

O tema da mobilidade urbana tornou-se central no debate sobre o mal-estar causado pela deterioração do transporte coletivo e da precarização das condições de deslocamento em Nilópolis. Um município com apenas 19 km², sendo que destes boa parte é ocupada pelo Parque Municipal e o Centro de Instruções do Gericinó, praticamente parou no tempo no que tange à mobilidade: ruas estreitas, falta de planejamento viário e a ausência de repressão aqueles que descumprem as leis de trânsito são problemas graves que precisam ser sanados.

O processo de apagão urbano relativo à mobilidade é causado principalmente pela deterioração do transporte coletivo – sobretudo ao longo dos últimos vinte anos – e da precarização das condições de deslocamento nos bairros. Esse processo tem afetado a qualidade de vida da população, agravada no caso dos trabalhadores de baixa renda que percorrem, em geral, grandes distâncias entre locais de trabalho, geralmente fora de Nilópolis, e a moradia, em regiões periféricas do município:

“Apesar do crescimento do comércio, especialmente nos últimos dez anos, a maioria dos 158.329 moradores ainda precisam sair de Nilópolis para trabalhar em outros municípios, especialmente na Capital. Mesmo sabendo disso, não houve mudança no panorama das linhas de ônibus. O mesmo itinerário praticado nos anos 80, por exemplo, é praticado nos dias atuais. Não se levou em consideração que o foco hoje das instalações de empresas é a Zona Oeste, principalmente a área de Jacarepaguá e Barra da Tijuca. As linhas de ônibus municipais deveriam alimentar essas linhas e fazer uma integração mais justa, com valores mais baixos e itinerários mais racionais”, diz o especialista em mobilidade urbana, Roberto Pinheiro.

Transporte individual

Uma das causas desse caos urbano pode ser explicado pela priorização do modelo de transporte individual em detrimento dos transportes coletivos. Nilópolis hoje tem uma das maiores frotas de mototáxis do Rio de Janeiro. Mesmo sem números oficiais, estima-se que hoje trabalhem no município cerca de 300 mototaxistas que se revezam 24h na prestação do serviço. Somando a frota de motoristas que trabalham para aplicativos como 99 e Uber, podemos chegar a quase 500 pessoas que tiram sua renda do transporte individual e a tendência é que esse número aumente cada vez mais, conforme explica Roberto Pinheiro:

“É um grande ciclo que começou lá na década de 80 com a falta de investimentos do poder público nos transportes coletivos. Isso impactou em Nilópolis. Dos prefeitos que administraram o município, apenas Manoel Rosa fez mudanças significativas que, por um breve período, impactaram positivamente na população. Mas foi pouco e os demais gestores não deram prosseguimento. O município é cortado por uma ferrovia e apesar do “boom” imobiliário, que levou ao crescimento no número de moradores em bairros como Paiol, Nova Cidade e Nossa Senhora de Fátima, a maioria das linhas de ônibus não fazem ligação entres os bairros. Na ausência disto, entraram mototaxis e os aplicativos de transportes”, explicou.

Somado a isso, a postura do poder público em não chamar os concessionários dos transportes públicos para um grande debate em torno do tema, projeta anos pouco animadores em relação ao rumo das políticas públicas de transporte e à melhora das condições de mobilidade urbana em Nilópolis.

Mais barato ir para fora de Nilópolis

O mais recente aumento nas tarifas de ônibus municipais fez com que algo inédito acontecesse em Nilópolis. As tarifas dos ônibus intermunicipais que ligam Nilópolis às cidades de Mesquita, Nova Iguaçu, Duque de Caxias, São João de Meriti e até mesmo alguns bairros do Rio de Janeiro são mais baratas do que as linhas que circulam apenas dentro de Nilópolis.

Como era de se esperar, a reação a esse aumento foi imediata. Nas redes sociais a revolta dos internautas pode promover um esvaziamento ainda maior no número de passageiros dos ônibus municipais. Na contramão do processo correto, a maioria da população pode acabar dando preferência para o uso do transporte individual. Para o especialista Roberto Pinheiro, essa realidade pode piorar a situação em Nilópolis e causar um grande caos, que pode levar até mesmo ao aumento no número de desempregados:

“Quando temos um aumento no valor das passagens, os patrões geralmente já começam a se preocupar com aquele funcionário. As empresas começam a rever os gastos com os funcionários de determinadas localidades e estudam “trocar” esse funcionário por um outro mais “barato”. Some-se a isso um serviço precário prestado pelas empresas de ônibus, que com intervalos longos e ausência de conforto, faz com que os passageiros migrem para o transporte individual. Enfim é um grande ciclo danoso para a população, pois com menos passageiros, a tendência é termos menos ônibus nas ruas e com isso os empresários de ônibus precisarão enxugar sua folha salarial, demitindo funcionários. Para onde irão esses funcionários? Um estudo recente mostrou que muitos acabam trabalhando como motoristas de aplicativos ou até mesmo mototaxistas, colocando mais carros e motos nas nossas ruas”, disse.

Solução

Roberto explica que a solução, apesar de não ser tão fácil quanto se parece, precisa ser tentada o mais rápido possível. Para ele, é preciso que o poder público convoque população e concessionários para uma ampla discussão e juntos realizem estudos de melhorias nos itinerários dos ônibus e a regulamentação dos serviços de transporte individual, além de implantar com urgência medidas que garantam uma mobilidade melhor nas ruas:

“O gestor municipal não pode trabalhar a mobilidade de forma separada. Os transportes coletivos e individuais devem ser tratados de forma a colaborar para o deslocamento dos moradores. Isso passa por um estudo de trânsito, que leve em consideração a prioridade para o transporte coletivo. Nilópolis é pequeno demais e acredito eu que temos apenas que organizar o trânsito nas áreas centrais do Centro e de alguns bairros mais populosos e agir com severidade contra as transgressões. Feito isso, o caminho seguinte é racionalizar as linhas de ônibus. Não é admitido mais que uma linha de ônibus faça uma ligação apenas entre o Centro e um bairro. Nilópolis deveria ter apenas quatro linhas municipais, todas circulares, ligando os quatro extremos da cidade: Cabral à Nova Cidade e Paiol à Nossa Senhora de Fátima, todas elas com intervalos de no máximo 5 minutos na hora do rush e admitindo-se ainda serviços especiais de atendimento nas áreas de maior demanda e imprescindível a adoção de bilhete único dando direito à duas viagens pagando-se apenas o valor de uma”, esclareceu o especialista Roberto Pinheiro.

Eleições municipais

Diante desse quadro, no ano que vem teremos eleições municipais e as promessas irão surgir. Mas, ao mesmo tempo que a crise da mobilidade se agrava, a forma como o poder público vem agindo não é nada animadora, pois tem se repetido as mesmas promessas de sempre e na prática o que tem se visto são políticas de mobilidade que favorecem cada vez mais a motorização individual e a produção de um modelo excludente.

Mais do que isso, esses fatos expõem como o tema é tradado pelo poder público. A escolha de gestores, secretários de transporte em especial, tem obedecido muito mais uma lógica política, em que a prioridade parece ser muito mais atender os interesses de grupos e partidos do que os conhecimentos técnicos que demanda um tema tão importante como o da mobilidade urbana. Além de não conseguirem resolver os muitos desafios da mobilidade urbana, os governantes têm aparecido com as mais absurdas propostas e com explicações no mínimo contraditórias para recentes os aumentos nas passagens.

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