Nilópolis amanheceu mais silenciosa nesta semana. O que antes era som de trailers, risadas e pipoca estourando, agora dá lugar ao eco de um espaço vazio. Após 25 anos de funcionamento, o cinema administrado pela CINESERCLA (Cinema e Serviços de Cultura Ltda.), localizado no terceiro piso do Shopping Nilópolis Square, encerrou definitivamente suas atividades, deixando o município sem nenhuma sala de exibição cinematográfica.
A decisão foi confirmada nesta segunda-feira (29) e, segundo apuração, o motivo foi o alto valor proposto para a renovação do contrato de aluguel. A administração da CINESERCLA tentou negociar, mas o reajuste exigido pelo proprietário do espaço ultrapassou as condições financeiras da empresa, tornando insustentável a continuidade da operação.
Com capacidade para 404 espectadores distribuídos em três salas, o cinema era mais do que um ponto de lazer — era parte da memória afetiva da cidade.
O impacto foi imediato entre os moradores. Luciana Barbosa, do bairro Cabral, lamenta:
“Eu cresci indo ao cinema do shopping. Era onde eu me encontrava com amigos, levava meus filhos e até assisti meu primeiro filme com meu marido. Agora, Nilópolis parece cada vez mais esquecida.”
O fechamento do cinema soma-se a uma série de baixas no comércio local. Nos últimos anos, marcas como Bob’s, McDonald’s, Habib’s, Leader e Marisa também deixaram o município, acentuando a preocupação de moradores e comerciantes sobre a diminuição das opções de lazer e consumo.

Mercado de cinemas cresce no estado, mas Nilópolis fica para trás
Enquanto Nilópolis se despede de seu último cinema, o mercado de exibição no estado do Rio de Janeiro vive uma fase de recuperação. Em 2025, o Brasil passou de 3.410 salas em 2024 para 3.484 salas, segundo dados da Ancine. A capital fluminense e bairros nobres como Barra da Tijuca, Botafogo e Tijuca continuam recebendo investimentos em complexos modernos, com salas premium e tecnologia IMAX.
Regiões periféricas como Nilópolis, Mesquita, Belford Roxo e São João de Meriti enfrentam retração. O fechamento da CINESERCLA Nilópolis é emblemático: a cidade agora não possui nenhuma sala de cinema ativa, evidenciando a desigualdade no acesso à cultura.
“É muito triste ver mais um espaço de cultura e entretenimento fechar as portas. O cinema fazia parte da história de Nilópolis”, lamenta Maria Helena, moradora que frequentava o shopping desde sua inauguração em 1999.
O vazio cultural e o futuro incerto

A CINESERCLA (Cinema e Serviços de Cultura Ltda.) é uma empresa brasileira especializada na operação de salas de cinema em centros comerciais. Com unidades espalhadas por diferentes estados, a rede se destacou por oferecer entretenimento acessível em regiões fora dos grandes polos culturais, como a Baixada Fluminense.
A unidade de Nilópolis, inaugurada em 30 de novembro de 1999, funcionava no Shopping Nilópolis Square, no coração da cidade. Com três salas e 404 lugares numerados, o cinema era um dos poucos espaços dedicados à cultura e lazer no município. A programação incluía lançamentos nacionais e internacionais, sessões promocionais e eventos especiais, como estreias e matinês escolares.
Durante seus 25 anos de operação, o CINESERCLA Nilópolis foi palco de encontros familiares, primeiras saídas de casais adolescentes, tardes de diversão entre amigos e até sessões educativas promovidas por escolas locais. Era, para muitos moradores, o único acesso regular à experiência cinematográfica.
📲 Siga nossas redes sociais para mais histórias inspiradoras:
O encerramento das atividades, confirmado em 29 de setembro de 2025, ocorreu após a empresa considerar inviável a renovação do contrato de aluguel, devido ao reajuste proposto pelo proprietário do espaço. A tentativa de negociação não teve sucesso, e o cinema encerrou suas operações no fim de semana anterior.
Esse fechamento representa não apenas a saída de uma empresa, mas o desaparecimento de um ícone cultural nilopolitano. A cidade, que já havia perdido marcas como Bob’s, McDonald’s, Habib’s e Lojas Americanas, agora vê o fim de sua última sala de cinema — um golpe duro para a vida cultural local.
Magno Francisco, morador de Olinda, comenta com indignação:
“Não é só sobre filmes. É sobre acesso à cultura. A gente já perdeu lojas, restaurantes e agora o cinema. O que sobra para os jovens daqui? Só redes sociais e rua.”
A CINESERCLA ainda mantém operações em outras cidades, mas a perda da unidade de Nilópolis levanta um alerta sobre a descentralização do acesso à cultura e a necessidade de políticas públicas que incentivem a permanência de espaços como esse em regiões periféricas.
Até o momento, não há informações sobre um novo empreendimento para ocupar o espaço deixado pela CINESERCLA Nilópolis. Enquanto isso, a população sente a ausência de mais um símbolo da vida cultural nilopolitana — e levanta um alerta sobre a necessidade de políticas públicas que incentivem a permanência de espaços culturais fora dos grandes centros.
A Secretaria do Audiovisual (SAV), vinculada ao Ministério da Cultura (MinC), reforça a importância da descentralização.
“O Brasil precisa manter e ampliar suas telas. O cinema gera encontros, emprego, renda e conhecimento da população com a arte produzida aqui”, afirmou Joelma Gonzaga, secretária da SAV.
Nilópolis já foi terra de telonas — hoje não tem nenhuma

Nilópolis já foi palco de telonas, pipoca e encontros marcados na porta do cinema. Até a década de 1980, pelo menos três salas de exibição movimentavam o cotidiano da cidade: o Cine Nilópolis, o Cine Imperial e o Cine Santa Rosa. Hoje, todas estão fechadas — seus espaços deram lugar a igrejas, mercados ou estabelecimentos comerciais.
Cine Nilópolis
Fundado em 1925, foi o primeiro a trazer a magia da sétima arte aos moradores do então quarto distrito de Nova Iguaçu. De propriedade de J. Fernandes, funcionava no número 1748 da antiga Rua Carmela Dutra — atual Deputado Simão Sessim — e comportava até 930 pessoas. Em seu auge, chegou a realizar 1.003 sessões em um único ano. Permaneceu ativo até o fim da década de 1990, embora nos últimos anos exibisse apenas filmes adultos. O prédio foi demolido na década seguinte para dar lugar a uma unidade das Lojas Americanas, que também encerrou suas atividades em agosto deste ano. Atualmente, o imóvel passa por reformas para receber uma academia da rede Smart Fit.
Cine Teatro Imperial
Inaugurado em 1937 por Antonio Vaz Teixeira, foi o segundo cinema da região e um dos mais tradicionais. Localizado na Avenida Getúlio de Moura, nº 1541, tinha capacidade para mil espectadores e chegou a realizar 918 sessões em um ano, atraindo uma média anual de 161.820 pessoas. Fechou no final da década de 1980. O prédio ainda existe e hoje abriga uma filial da rede Caçula.
Cinemas de Olinda
Até o bairro de Olinda teve suas telonas. A Rua Senador Salgado Filho chegou a abrigar dois cinemas que disputavam a atenção dos moradores locais e das redondezas.
O Cine União, inaugurado em 1954, comportava 500 pessoas. No número 845, hoje funciona um comércio. Já o Cine São Jorge, fundado em 1955, ficava no número 71 e tinha capacidade para 750 espectadores. Realizou 722 sessões em um ano, com público anual de 56.320 pessoas. Atualmente, o imóvel está fechado e apresenta sinais de abandono.
Cine Santa Rosa
Um dos últimos a se manter ativo com exibição de lançamentos, funcionava na Avenida Getúlio de Moura, onde hoje está instalada a Igreja Universal. Apesar das mudanças e da nova função religiosa, o imóvel ainda preserva boa parte da arquitetura original do antigo cinema. Era conhecido por sua programação variada e por ser ponto de encontro da juventude nilopolitana. Fazia parte de uma rede, que mantinha salas em Nova Iguaçu, São João de Meriti e Duque de Caxias, sendo esta a última unidade que ainda funcionava. Encerrou definitivamente as atividades em 2016.
Com o recente fechamento do CINESERCLA Nilópolis, localizado no Shopping Nilópolis Square, a cidade ficou oficialmente sem nenhuma sala de cinema em funcionamento. Agora, os moradores precisam se deslocar para municípios vizinhos em busca da experiência cinematográfica.
A ausência de cinemas não é apenas uma questão de lazer, mas de acesso à cultura.
“É uma vergonha. Tínhamos três cinemas no bairro, agora não temos nenhum. Viraram igreja, mercado e loja. Fala sério”, desabafa Roberto Nascimento, morador do bairro Nossa Senhora de Fátima.
A história dos cinemas de Nilópolis é também a história de seus moradores. E embora as luzes das salas tenham se apagado, a memória permanece viva — esperando por iniciativas que tragam de volta o brilho da sétima arte à cidade.
💬 Sugira matérias, entre em contato com os nossos canais:









