Orgulho da história comercial de Nilópolis, o Grupo Chatuba — gigante do setor de materiais de construção que nasceu e mantém sua sede no município — teve o processamento de sua recuperação judicial deferido pela Justiça do Estado do Rio de Janeiro. A companhia, que começou de forma humilde na cidade e se transformou em uma das marcas mais emblemáticas do varejo fluminense, busca reestruturar um passivo total de R$ 164,1 milhões.
O processo tramita na 1ª Vara Cível da Comarca de Nilópolis e abrange a holding operadora Fornecedora Chatuba de Nilópolis S.A. e a subsidiária CTA Distribuidora Ltda.. A decisão de recorrer ao Judiciário ocorreu após o esgotamento de uma tentativa de reestruturação extrajudicial mediada pelo Centro Brasileiro de Mediação e Arbitragem (CBMA). Embora acordos tenham sido firmados com bancos credores, a frustração de um evento de liquidez previsto inviabilizou a sustentação do caixa.
O Orgulho Nilopolitano: De Loja de Bairro a Gigante do Estado
A trajetória da empresa é profundamente ligada às raízes nilopolitanas. Fundada em 1962 no coração de Nilópolis por dois irmãos imigrantes portugueses, a Chatuba começou em um pequeno espaço de apenas 80 metros quadrados e com três colaboradores. Foi a partir da confiança da população local que o negócio prosperou e se projetou para todo o estado.
Em seis décadas de expansão, a marca nilopolitana alcançou 13 lojas de grande porte espalhadas por Nilópolis, Rio de Janeiro, Nova Iguaçu, Belford Roxo, Duque de Caxias, São Gonçalo e Niterói, além de um moderno centro de distribuição. A qualidade do serviço nascido na cidade rendeu à rede o título de melhor loja de materiais de construção do Rio de Janeiro por cinco vezes nos últimos sete anos, concedido pela Associação Nacional dos Comerciantes de Material de Construção (ANAMACO).
A aceleração dos investimentos ganhou força a partir de 2015. Durante a pandemia (2020-2021), a empresa registrou faturamentos recordes embalados pelo boom de reformas residenciais, o que permitiu a abertura de lojas na Barra da Tijuca, a aquisição de pontos da antiga Casa Show e a ampliação da rede.
Desafios Macroeconômicos e a Concorrência dos Atacarejos
A crise que levou ao pedido judicial resulta da combinação de fatores macroeconômicos e forte pressão concorrencial. Após o período de vendas atípicas na pandemia, o setor enfrentou retração. A manutenção da taxa Selic em patamares elevados encareceu o crédito e reduziu o poder de compra das famílias.
Somou-se a isso a chegada ostensiva de cinco grandes unidades no modelo de atacarejo de materiais de construção na área de influência da rede entre o final de 2024 e o início de 2025. Com preços e margens agressivos, essas concorrentes provocaram uma queda abrupta no faturamento da Chatuba, gerando restrição de crédito junto a fornecedores da indústria e desabastecimento temporário nas prateleiras.
Raio-X da Dívida e Próximos Passos
Do endividamento total, R$ 132,3 milhões correspondem a débitos concursais (sujeitos à recuperação). A classe quirografária concentra R$ 126,2 milhões, com destaque para grandes instituições financeiras como Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Bradesco, Banco ABC Brasil, Banco Safra, Sicredi e debenturistas. As dívidas trabalhistas somam R$ 5,1 milhões (envolvendo 161 funcionários e honorários), e micro/pequenas empresas representam R$ 946 mil.
Há ainda R$ 31,7 milhões em dívidas extraconcursais junto ao Banco Daycoval, atreladas a garantias fiduciárias.
Sob a supervisão da administradora judicial Preserva-Ação Administração Judicial, a diretoria do Grupo Chatuba irá apresentar o plano oficial de reestruturação aos credores. O objetivo central é preservar os mais de 800 empregos diretos gerados pela companhia e garantir a continuidade da marca que nasceu em Nilópolis e se tornou referência no estado do Rio de Janeiro.
















